Esfinge e Pirâmides de Gizé no Egito

Egito além das pirâmides: relato de uma viagem em família 

Este texto faz parte da série de relatos de viagem do Um Tempo pra Viver. A experiência foi escrita por Alessandra Marques, viajante convidada, que viajou pelo Egito com a família durante o Ramadã e compartilha aqui impressões pessoais sobre cultura, deslocamentos, gastronomia, Cairo, Luxor, Alexandria, Fayoum e Mar Vermelho.
Rita Werneck

O que vem à sua mente quando pensa no Egito?  

É quase impossível não imaginar as pirâmides, os faraós e os templos monumentais que marcaram uma das civilizações mais fascinantes da história. Mas, depois de passar alguns dias no país, percebi que o Egito é muito mais do que seus cartões-postais. É um lugar de contrastes, com costumes bem diferentes, onde podemos viver experiências que desafiam muitas das expectativas que levamos na bagagem. 

Saímos de Vitória-ES em quatro: meu marido, meus filhos de 18 e 20 anos e eu. Paramos na Itália por uns dois dias, e passeamos pelo Lago di Como. Depois, voamos para o Egito.  

Nossa viagem aconteceu durante o período do Ramadã e, talvez por isso, pudemos observar ainda mais de perto aspectos da cultura local. Além dos monumentos históricos, o que mais me marcou foram as pessoas, as diferenças culturais e a oportunidade de enxergar um pouco da vida cotidiana de quem vive por lá. 

Viajante em frente às Pirâmides de Gizé no Egito

Primeiras impressões e algumas surpresas

Antes da viagem, minha irmã me disse que seria muito difícil conhecer o Egito sem uma agência de turismo. Confesso que achei exagerado da parte dela. Eu e meu marido sempre viajamos por conta própria. Ele adora planejar roteiros e sempre organizamos tudo do nosso jeito. 

Mas, ao conversar com nossos amigos brasileiros que moram no Egito, entendemos que minha irmã tinha razão. A realidade lá é diferente da maioria dos destinos que já havíamos visitado. Eles nos explicaram que muitos passeios são mais fáceis e seguros com acompanhamento turístico local. Graças à ajuda deles, conseguimos contratar um guia em Luxor e outro no Cairo

A primeira surpresa aconteceu logo na chegada ao aeroporto de Marsa Alam. Antes mesmo de entrar oficialmente no país, enfrentamos uma verdadeira confusão para pagar o visto egípcio, no aeroporto. Diversos balcões ofereciam o mesmo serviço, com preços diferentes e abordagens persistentes. Parecia a Bolsa de Valores de Nova Iorque. Impossível entender qual era a melhor opção. No fim, optamos pelo guichê oficial de câmbio e conseguimos resolver tudo sem problemas. O valor ficou até menor que nos outros balcões. Pagamos U$ 100 ao todo, para nós quatro. 

A segunda surpresa foi ainda mais inusitada. Ainda no Brasil, meu marido tentou alugar um carro para usar em Marsa Alam por uns cinco dias, mas os valores encontrados estavam em torno de R$50.000,00. Isso mesmo! Você não entendeu errado! Não sei o que houve. Foi então que nosso amigo brasileiro que mora no Cairo nos ajudou, alugando um carro no Cairo e contratando um motorista para percorrer cerca de 750 quilômetros até Marsa Alam e nos entregar o veículo. 

Quando ele chegou ao aeroporto, descobrimos que não falava praticamente nada de inglês. Toda a comunicação aconteceu pelo Google Tradutor. Grava daqui, grava dali… no final,  deu tudo certo. Demos a ele $100, já incluído o retorno dele pro Cairo, de ônibus. 

Família no Templo de Hatshepsut em Luxor, no Egito

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Hospedagem e o primeiro contato com a cultura local 

Dali, fomos direto para um hotel que alugamos no Airbnb, de frente para o Mar Vermelho. As instalações eram excelentes e me senti completamente em casa. 

Logo de cara, uma coisa me chamou a atenção: a cultura da gorjeta. 

No Egito, essa prática está presente em praticamente todos os lugares. O funcionário que carrega as malas, a pessoa responsável pela limpeza de banheiros públicos, o atendente de um local turístico… todos esperam receber algum valor em agradecimento pelo serviço prestado. Não é oportunismo, mas parte da cultura local. 

Uma das situações mais curiosas aconteceu nos banheiros públicos. Meu marido e meu filho contaram que, quando entravam no banheiro público masculino dos locais turísticos, já havia alguém indicando qual cabine usar. Ao sair, a mesma pessoa abria a torneira, oferecia o sabão, ajudava com papel-toalha para secagem das mãos e, ao final, estendia a mão, aguardando sua gorjeta. Eu também vi situações parecidas no banheiro feminino, embora com menor frequência. Para eles, comum. Para nós, um pouco constrangedor, confesso. 

Outra situação que me chamou a atenção foi observar nosso guia distribuindo discretamente pequenas quantias de dinheiro para trabalhadores dos locais turísticos. Por curiosidade, perguntei o motivo, e ele explicou que aquelas pessoas recebem salários muito baixos e que ajudá-las é um comportamento valorizado na cultura egípcia. Faz parte dos Cinco Pilares do Islã a destinação de parte da riqueza para pessoas necessitadas. 

De qualquer forma, tudo no Egito é bem barato. A moeda brasileira é bem forte lá. Pra você ter uma ideia… dá para encher um tanque de combustível com apenas R$ 80,00! 

Família dentro de uma tumba no Vale dos Reis, em Luxor

Luxor e a grandiosidade do Egito Antigo 

Depois de conhecer o Mar Vermelho (lindo, por sinal… com águas cristalinas, de um azul maravilhoso), seguimos para Luxor

Em Luxor, ficamos hospedados no Aton Suítes Resort, uma acomodação muito confortável e bem localizada. 

No dia seguinte, visitamos alguns dos mais importantes sítios arqueológicos do planeta: o Templo de Karnak, o Templo de Luxor, o Vale dos Reis e o Templo de Hatshepsut. 

É difícil explicar a sensação de estar diante de construções erguidas há milhares de anos. Além da imponência dos monumentos, impressiona pensar na capacidade técnica e organizacional daquela civilização. 

À noite, caminhamos pelo El-Souk, o tradicional mercado local. Como era período de Ramadã, fomos convidados por um vendedor simpático a participar com ele e seus amigos da refeição que marca a quebra diária do jejum. Desfrutar dessa hospitalidade foi uma das experiências culturais mais especiais da viagem.  

Nessa mesma noite, saímos para jantar e pedimos o koshari, considerado por muitos o prato nacional do Egito, equivalente ao nosso ‘feijão com arroz’, mas é uma mistura de arroz, macarrão, lentilhas, grão-de-bico, cebola frita e molho de tomate. Deliciosa. 

Família diante de relevo egípcio em Luxor, no Egito

Cairo: caos, história e contrastes 

A viagem de carro até o Cairo foi uma experiência à parte. 

Chegamos durante o horário da quebra do jejum do Ramadã. Talvez por isso tenhamos conseguido atravessar a cidade sem grandes dificuldades. 

No dia seguinte, devolvemos o carro e não pensamos em dirigir novamente. Deus me livre! O trânsito do Cairo foi uma das coisas mais impressionantes que vi, depois das pirâmides (só um pouquinho de exagero). É um caso a ser estudado porque não se vê acidentes, apesar de todos os carros terem algum amassadinho.

Os pedestres não sabem o que é uma faixa de pedestres. Atravessam no meio da rua, ficam entre os carros, que não transitam em linha reta, fazendo um certo sinal com a mão e sempre cavando um espaço para passar. As faixas de trânsito parecem ser apenas uma sugestão! É cada fininho, que eles tiram… Todos compartilham o espaço de uma maneira que, para quem vai do Brasil, parece loucura. Nós até atravessamos experimentando esse modelo, mas estávamos em 10 pessoas grudadas uma na outra. Se um morresse, todos morriam!  

No Cairo, visitamos o novo museu do Cairo, as famosas Pirâmides de Gizé, o mercado Khan al Khalili, Saqqara, Dahshur, Mênfis, a Fortaleza de Saladino com sua mesquita e o Bairro Copta. 

As pirâmides são realmente impressionantes. Nenhuma fotografia consegue transmitir a dimensão real daquelas construções. 

Talvez o aspecto mais marcante do Cairo tenha sido perceber seus contrastes. 

De um lado, New Cairo, moderna, limpa, com um shopping maravilhoso, amplo, que lembra o luxo da América do Norte. 

De outro, a Cidade do Lixo, onde vivem os cristãos coptas que, ao longo de décadas, desenvolveram um eficiente sistema de reciclagem. Fomos de carro até a entrada do bairro, mas subimos de tuktuk (uma moto adaptada para receber 6 ou mais pessoas) até chegamos à famosa Igreja da Caverna, escavada na pedra. Um lugar impressionante.  

Família com vendedor em mercado no Egito

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Museu, Pirâmides e Esfinge

Mercados e Khan el Khalili 

Cruzeiro pelo Nilo com Jantar

Alexandria e o deserto 

Também fizemos um bate-volta para Alexandria. 

Visitamos a Biblioteca de Alexandria, as Catacumbas de Kom El Shoqafa, o Teatro Romano, a Fortaleza de Qaitbay e a Igreja de São Marcos. 

Além das atrações históricas, foi agradável almoçar num restaurante diante do Mar Mediterrâneo e observar uma atmosfera diferente da encontrada no Cairo. 

Outro passeio inesquecível foi a visita ao Oásis de Fayoum, já no final do nosso tempo no Egito, nos arredores do Deserto do Saara. Acompanhados por um guia beduíno, fizemos um passeio de pura “emoção” num “quatro por quatro” pelas dunas, que mais parecia um rali. Foi uma das atividades mais divertidas de toda a viagem. 

Cultura e gastronomia 

A culinária egípcia é bem conhecida por muitos que curtem a culinária árabe. Muito saborosa. 

Experimentamos ta’meya, a versão egípcia do falafel, preparada com favas; mahshi, legumes recheados com arroz temperado; hawawshi, pão recheado com carne bem condimentada; baba ghanoush e diversos tipos de pães tradicionais. 

As tâmaras merecem um capítulo à parte. Foram, sem dúvida, as melhores que já provei. Enormes e docinhas.  

Ainda assim, depois de alguns dias, comecei a sentir falta do tempero brasileiro. 

Vale a pena conhecer? 

Sem dúvida!  

Foi uma das viagens mais diferentes que já fiz. Não apenas pelas pirâmides ou pelos templos, mas pelas experiências humanas que vivi com minha família. 

As pirâmides impressionam. Os templos encantam. A história fascina. Mas, o que mais ficou gravado na minha memória foram as pessoas, os costumes, o partilhar do pão durante o Ramadã, o trânsito aparentemente impossível, as conversas com os nossos amigos e os pequenos choques culturais.  

O país que me surpreendeu e me deixou com a sensação de que ainda há muito para descobrir. 

Sobre Alessandra Marques

Alessandra é casada; mãe de um casal de filhos; graduada em Arquitetura, Música e Direito; fotógrafa; escreveu os livros “Luminescências” e “O Melhor Amigo” e ama viajar.
Instagram: @alessandra_marquest, @thompson.travelss


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